NATURAL SCIENCE



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DIFFERENT STRINGS  NATURAL SCIENCE  TOM SAWYER


NATURAL SCIENCE

I. Tide Pools (2:21)

When the ebbing tide retreats
Along the rocky shoreline
It leaves a trail of tidal pools
In a short-lived galaxy
Each microcosmic planet
A complete society

A simple kind of mirror
To reflect upon our own
All the busy little creatures
Chasing out their destinies
Living in their pools
They soon forget about the sea...

Wheels within wheels
In a spiral array
A pattern so grand
And complex
Time after time
We lose sight of the way
Our causes can't see
Their effects


II. Hyperspace (2:47)

A quantum leap forward
In time and in space
The universe learned to expand
The mess and the magic
Triumphant and tragic
A mechanized world out of hand

Computerized clinic
For superior cynics
Who dance to a synthetic band

In their own image
Their world is fashioned -
No wonder they don't understand

Wheels within wheels
In a spiral array
A pattern so grand
And complex
Time after time
We lose sight of the way
Our causes can't see
Their effects


III. Permanent Waves (4:08)

Science, like nature
Must also be tamed
With a view towards its preservation
Given the same
State of integrity
It will surely serve us well

Art as expression
Not as market campaigns
Will still capture our imaginations
Given the same
State of integrity
It will surely help us along

The most endangered species
The honest man
Will still survive annihilation
Forming a world -
State of integrity
Sensitive, open and strong

Wave after wave
Will flow with the tide
And bury the world as it does
Tide after tide
Will flow and recede
Leaving life to go on
As it was...
CIÊNCIAS NATURAIS

I. Poças de Maré

Quando a maré vazante recua
Ao longo da costa rochosa
Ela deixa uma trilha de poças
Em uma galáxia de vida curta
Cada planeta do microcosmo
Uma sociedade completa

Um tipo de espelho simples
Para refletir sobre nós mesmos
Todas as criaturinhas ocupadas
Perseguindo seus destinos
Vivendo em suas poças
Logo se esquecerão do mar...

Engrenagens dentro de engrenagens
Em uma matriz espiral
Um padrão tão grandioso
E complexo
Repetidas vezes
Perdemos o caminho de vista
Nossas causas não conseguem ver
Seus efeitos


II. Hiperespaço

Um salto quântico
No tempo e no espaço
O universo aprendeu a se expandir
A desordem e a magia
Triunfante e trágica
Um mundo mecanizado fora de controle

Clínica computadorizada
Para cínicos superiores
Que dançam para uma banda sintética

Em sua própria imagem
Seu mundo é formado -
Não é de admirar que não compreendam

Engrenagens e mais engrenagens
Em uma matriz espiral
Um padrão tão grandioso
E complexo
Repetidas vezes
Perdemos o caminho de vista
Nossas causas não conseguem ver
Seus efeitos


III. Ondas Permanentes

Ciência, como a natureza
Também deve ser domada
Tendo em vista sua preservação
Dado o mesmo
Estado de integridade
Ele certamente nos será útil

Arte como expressão
Não como campanhas de mercado
Ainda capturarão nossas imaginações
Dado o mesmo
Estado de integridade
Ele certamente nos ajudará a prosseguir

A espécie mais ameaçada de extinção
O homem honesto
Ainda sobreviverá ao aniquilamento
Formando um mundo -
Estado de integridade
Sensível, aberto e forte

Onda após onda
Fluirão com a maré
E encobrirão o mundo como acontece
Maré após maré
Fluirão e recuarão
Permitindo a vida seguir
Como antes...


Música por Geddy Lee e Alex Lifeson / Letra por Neil Peart


Nossa tecnologia é grandiosa, mas nosso lugar no Universo é ínfimo

"Natural Science" é a conclusão de Permanent Waves. Considerada por muitos como um dos maiores trabalhos de estúdio já alcançados no mundo do rock progressivo, o Rush entrelaça nessa sexta faixa um complexo arranjo musical e lírico para estabelecer mais uma obra de arte mágica em sua carreira. Sendo a canção mais extensa do disco, marcando pouco mais de nove minutos, a viagem sonora precisa apresenta três movimentos fantásticos, combinados em uma incrível e perfeita harmonia.

Mesmo Permanent Waves sendo um álbum repleto de momentos especiais, "Natural Science" é tida por muitos como a canção mais impressionante do disco, e uma das mais incríveis de toda a carreira da banda. Não apenas seu conceito provoca admiração, mas também as habilidades musicais que compõem sua atmosfera, estas que são absolutamente apropriadas para cada cenário do tema.

"Natural Science" reflete o esforço geral mais técnico do primeiro trabalho da década de 1980, com a banda combinando eficazmente suas forças para produzir uma das peças que tipificam e identificam Permanent Waves. Mesmo realocando sua sonoridade, o trio não conseguiu resistir à criação de uma canção mais próxima dos moldes anteriores, concebendo o que podemos considerar como um mini épico. A composição mais ambiciosa do álbum não fora originalmente planejada: a banda havia acabado de preparar as demos de todo o álbum, menos para uma faixa. Ao partirem para o Le Studio em Quebec (Canadá), a fim de começarem a gravar definitivamente, havia ainda um incômodo vazio. Por um tempo, parecia que um projeto no qual Neil Peart trabalhava, baseado no romance do século XIV Sir Gawain & The Green Knight, poderia preencher esse espaço, mas não seria ele.

"A letra ficou muito fora do contexto do resto do material, então o projeto foi arquivado", explica Peart. "Isso deixou um espaço em branco nos planos do disco. Assim, enquanto Alex e Geddy trabalhavam com overdubs, me isolei para tentar escrever alguma coisa. Por três dias me deparei com a frustração das folhas em branco, mas por fim algo começou a tomar forma, finalmente vindo a ser 'Natural Science' - a faixa de conclusão".

Com o desmantelamento de "Sir Gawain & The Green Knight", partes da canção foram redirecionadas para "Natural Science". "No Le Studio, 'Natural Science' foi se tornando uma canção a partir de trechos de 'Gawain', além de algumas ideias instrumentais que ainda não haviam sido utilizadas e outras partes reescritas".

"Havíamos deixado de propósito essa canção não finalizada, para a prepararmos diretamente no estúdio. Composições como 'Natural Science' e 'The Twilight Zone' foram alguns bons resultados que conseguimos dessa maneira, beneficiados pela pressão e pela espontaneidade dessa situação".

"'Natural Science' foi criada inteiramente no estúdio"
, reitera. "Acho que é a minha melhor letra escrita e uma das melhores musicalmente".

A dedicação de Peart emergiu uma canção prolongada, similar em forma aos trabalhos da década de 1970, mas de natureza lírica nitidamente diferente. Mesmo trazendo uma abordagem baseada em teorias científicas, como em "Cygnus X-1 Book I: The Voyage" e "Cygnus X-1 Book II: Hemispheres" (canções complementares dos álbuns A Farewell to Kings de 1977 e Hemispheres, 1978), "Natural Science" dava adeus à assistência de entidades simbólicas, cedendo espaço para ideias mais diretas. Passagens fantasiosas e ficcionais eram suplantadas pelos campos de batalha dos negócios e dos domínios digitais, com o baterista procurando, definitivamente, conexões pessoais em um mundo cada vez mais impessoal, algo que seria constante dali pra frente em seu trabalho com o Rush.

"Não há dúvidas que o trabalho sob pressão pode ser gratificante, tal como descobrimos várias vezes no estúdio. É como se a mente criativa deslizasse em uma arrancada para uma ultrapassagem, permitindo um breve, desgastante, mas produtivo impulso no processo criativo. No terceiro dia do meu confinamento esse fenômeno chegou ao fim, e algo novo começou a tomar forma. Foi o produto de uma série de experiências desconexas, livros, imagens, pensamentos, sentimentos, observações e princípios confirmados, que de alguma maneira assumiram a forma de 'Natural Science'. De qualquer modo, gostei, e os outros também gostaram, então começamos outra sessão de brainstorming para tornar o monstro em música".

Mesmo ainda afirmando algumas de suas antigas inspirações literárias e filosóficas, Peart inclina em Permanent Waves seus posicionamentos tradicionalmente idealistas para considerações mais críticas e pragmáticas, além de ajustá-las de maneira cada vez mais satisfatória aos variados cenários sonoros expressados pela incrível versatilidade musical do grupo. "Se a letra vem em primeiro lugar, trabalhamos em torno dela e no humor que ela tenta criar", diz Alex Lifeson. "Se a música é muito positiva, usamos acordes maiores; se ela é mais triste ou mais instigante, utilizamos acordes menores para produzir tal sensação. A aplicação de outros tempos além do 4/4 são ainda mais interessantes, tanto nos pontos de vista dos ouvintes quanto dos músicos. Esses são mais difíceis de dominar, mas também os mais gratificantes, especialmente quando você os toca todas as noites".

"'Natural Science' é sempre um grande desafio", completa o guitarrista. "É bem complicada, difícil de tocar. Seu ritmo é bastante otimista, e você tem que intensificá-lo até o fim. É sempre um desafio para todos nós. Quando a tocamos bem, nos sentimos realmente muito bem".

Musicalmente, "Natural Science" é complexa em variados sentidos, apresentando uma surpreendente fusão de estilos muito distintos e também várias mudanças de compasso – um deleite iniciado em um trabalho acústico que representa um dos mais belos exemplos de proeza dentro na música progressiva. A canção é composta por três partes eruditas que visitam a biologia, a física, a ecologia e a sociologia, rendendo um ensaio lírico que interpreta várias características dos homens, os desdobramentos da ciência que ele produz e os níveis de consciência sobre seu lugar no universo.

I. Tide Pools (0:00 - 2:21 / Total: 2:21)

Com sons de fluxo de água e gaivotas que arquitetam o frescor de um cenário litorâneo, "Tide Pools" inicia "Natural Science". Propondo um rico imaginário, ligeiramente similar à canções como "A Farewell to Kings" e "Xanadu" (de A Farewell to Kings, 1977), o primeiro de seus dois movimentos associa toques acústicos em reverb à profunda reflexão, elementos que pintam o quadro da cena natural proposta na letra. A composição evoca sensações de ar livre, instigando um olhar para a natureza bastante aproximado.

"Uma vez que tivemos que gravar as guitarras, levamos as caixas de som para fora – isso foi no Le Studio em Morin Heights, Quebec", explica Lifeson. "Gravamos o eco natural vindo das montanhas, em combinação ao som das águas fluindo com a voz de Geddy. Não utilizamos qualquer tipo de eco sintético na faixa das águas".

"Frivolidades à parte, o trabalho continuava enquanto cavávamos uma montanha de overdubs", diz Neil. "Alex e eu remávamos no lago com as mãos vibrando para gravar os efeitos de 'Tide Pools'. As vozes e as guitarras eram tocadas em direção ao lago para aproveitar o eco natural - os tímpanos foram gravados ao ar livre, amplificadores de guitarra eram colocados por todo o prédio para conseguirmos o máximo de diversidade sonora. Uma variedade de guitarras, sintetizadores, vocais, percussão e experimentos foram feitos nesse disco".

O título de "Tide Pools" ("Poças de Maré") refere-se às áreas de substrato rochoso que geralmente abrigam uma flora e fauna mais ricas do que os trechos arenosos dos litorais. Ao conseguirem fixar-se firmemente a um substrato estável, muitos animais dessa faixa conseguem tolerar a subida e descida da água e o bater das ondas. Tais poças representam microcosmos da vida marinha, facilmente acessíveis quando a maré está baixa.

De forma descomplicada, os dois primeiros versos escritos por Peart são pautados por vocais tranquilos e precisos oferecidos por Lee, enquanto Lifeson dedilha em seu instrumento – o baterista não surge nessa parte. O trecho é muito interessante, pois engloba um grande tema lírico construído em uma base instrumental bastante simples.

"Tide Pools" traz uma analogia que parte da natureza dessas poças de maré, representando microcosmos com relação aos oceanos, um vasto universo em comparação. O conceito refere-se às minúsculas criaturas que fazem parte desses ecossistemas, definidos como pequenas porções do mar isoladas durante um período de tempo onde, geralmente, o ciclo de maré é o fator determinante para seu isolamento. Naturalmente, esses seres perseguem seus destinos para sobreviverem e se desenvolverem, sem estarem cientes de qualquer outro elemento fora do seu ambiente. Tais figuras, para a canção, são comparadas à própria realidade humana.

O planeta Terra (ou até mesmo nosso sistema ou galáxia) seria apenas uma pequena poça de maré a integrar a vasta arena cósmica. Nossos esforços ainda não foram totalmente suficientes para compreender plenamente uma significativa porção de sua vastidão, e o próprio desenvolvimento humano, historicamente, afasta a ideia de que somos apenas uma partícula desse todo.

O segundo e breve cenário de "Tide Pools" explode com a banda completa: a inconfundível voz de Lee está de volta, compondo a bateria certeira de Peart e a intensa guitarra de Lifeson. O som é pesado e vívido para expressar os movimentos do grande complexo mecânico no qual estamos inseridos. A banda aborda a física quântica, esta que estuda os eventos que transcorrem nas camadas atômicas e subatômicas, ou seja, entre as moléculas, átomos, elétrons, prótons, pósitrons, e outras partículas, cujos resultados são mais evidentes na esfera macroscópica. O trecho "Wheels within wheels in spiral array" ("Engrenagens dentro de engrenagens em uma matriz espiral") descreve uma espécie olhar crescente sobre o movimento de variadas estruturas em órbita – elétrons que orbitam o núcleo de um átomo, luas que orbitam planetas, planetas que orbitam estrelas, estrelas que orbitam o centro da galáxia – uma noção de complementaridade. É possível que existam até "engrenagens" maiores que nunca conseguiremos perceber. Porque não imaginar que o próprio universo esteja orbitando algo ainda maior?

Em suma, Peart pensa nas relações e interconexões que se desenrolam desde a essência da matéria, retornando o foco da canção para a postura humana que, devido sua ávida busca pelo desenvolvimento e conhecimento, enterra a noção dos efeitos de suas produções. O ponto principal de "Tide Pools" é o quão minúsculo nossos mundos podem ser - ficamos tão obcecados em nossas próprias buscas que esquecemos da magnífica imensidão que integramos.

II. Hyperspace (2:21 - 5:07 / Total: 2:46)

Similar à tensão incitada pela terceira e última parte de "Cygnus X-1 Book I: The Voyage", ruídos perturbadores transportam o ouvinte para a projeção de um grande cenário de ficção científica distópico. "Hyperspace" supera a metáfora das poças de maré como uma representação da sociedade humana, erguendo abruptamente figuras tecnológicas como microcosmos artificiais de um universo cada vez mais mecanizado. Embora o trecho esteja interconectado em transição com "Tide Pools", eles são musicalmente opostos em todas as análises possíveis.

O espaço definido por quatro ou mais dimensões é chamado de hiperespaço. Uma das primeiras aplicações bem-sucedidas de uma quarta dimensão às leis físicas foi feita por Albert Einstein (1879 - 1955) em sua Teoria Geral da Relatividade. Para o cientista, as três dimensões do espaço e o tempo estão intimamente ligadas, formando um continuum de espaço-tempo em quatro dimensões, teoria que explicou e permitiu a previsão de diversos fenômenos comprovados mais tarde por físicos e astrônomos. Na ficção científica, são comuns viagens através do hiperespaço para superar monstruosas distâncias entre estrelas e galáxias. Mesmo que fosse possível viajar na velocidade da luz dentro de nosso espaço-tempo, demoraríamos 100.000 anos apenas para deixarmos a galáxia. Assim, Peart, de modo perspicaz, utiliza esse conceito para indicar a passagem imediata de um longo tempo – da origem do homem à sua condição de pleno desenvolvimento tecnológico.

Um salto quântico, em física e química, acontece quando uma partícula ganha energia. O movimento dos elétrons se acelera, levando-os a se afastar do núcleo, pulando para outra camada eletrônica. Esse afastamento dos núcleos acontece na forma de "saltos" – do nível 1 para o 2 no primeiro salto, de 2 para 4 no segundo salto e assim sucessivamente. Em "Hyperspace", o Rush nos leva a um salto quântico no tempo do homem: ideias como o Big Bang, o misticismo / teologia, computadores, máquinas – todas as construções humanas no topo surgem repentinamente do que eram apenas poças de maré. Em uma analogia com o Gênesis bíblico, o homem molda "seu mundo à sua imagem", de modo que abandonamos a ciência daquilo que realmente está no controle: a natureza.

O "salto quântico à frente" parece inspirado no filme 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), dirigido e produzido por Stanley Kubrick e co-escrito por Kubrick e Arthur C. Clarke, mais especificamente na evolução de milhões de anos que marca a primeira parte A Aurora do Homem para a segunda parte, Na Lua. O próprio título da obra assume e destaca o paralelo com o poema épico grego A Odisseia de Homero, onde Kubrick chegou a afirmar que, para os gregos, as vastas extensões do mar eram tão misteriosas e remotas quanto são para nós os planetas onde lançamos nossos olhares.

2001 ressalta que estamos de fato sob o controle da natureza, destacando a trajetória do homem desde quatro milhões de anos até 2001, onde a evolução da espécie, a influência da tecnologia nesse crescimento e os perigos da inteligência artificial são intensamente abordados. No final (talvez um dos mais emblemáticos já vistos em clássicos do gênero), observamos astronautas travando uma luta mortal contra um computador, numa versão moderna de confronto entre criador e criatura, algo que já havia inspirado anteriormente clássicos como Frankenstein (1818), da escritora britânica Mary Shelley (1797 - 1851).

A abordagem musical dos dois primeiros versos de "Hyperspace" é violenta e frenética, incrementada por intensos efeitos sonoros especiais. Um riff fervilhante e perene de guitarra e baixo é adicionado, e os vocais de Geddy são tratados a fim de evocar um cenário apocalíptico. Movimento, descobertas, imagens, acontecimentos e desdobramentos – todos os sons estranhos aqui utilizados aumentam a experiência do ouvinte, provocando sensações bastante intensas e até mesmo perturbadoras. A proposta de "Hyperspace" afirma que nosso mundo tem se expandido e se tornado "mecanizado e fora de controle"; o homem, em suas buscas, perde a noção dos efeitos que suas decisões podem causar ao seu próprio redor. Cientistas conseguem especular como as novas tecnologias podem impactar na vida dos seres humanos no futuro, mas a história têm provado que as mesmas nos levam à áreas sociais, políticas e éticas jamais previstas.

A transição para a repetição do último verso de "Tide Pools" dentro de "Hyperspace" é marcada por um solo de guitarra extenso e avassalador de Lifeson, relembrando que o homem, mesmo contemplando a si próprio (à pequena parcela de matéria que lhe é peculiar), é parte integrante desse pequeno setor da natureza.

III. Permanent Waves (5:07 - 9:19 / Total: 4:12)

"Permanent Waves" conclui "Natural Science" e o próprio álbum. Após as sensações amedrontadoras sobre o futuro dos homens em "Hyperspace", o terceiro e último movimento remonta o otimismo. Há aqui o reconhecimento de que a ciência, mesmo benéfica e imprescindível para a vida humana, precisa ser domada como a natureza. Nos dois casos, tal domínio não significa uma dedicação à subjugar, mas uma busca por avanços equilibrados. Nosso instinto de sobrevivência não mostra lógica ao ultrapassar os limites naturais, sendo necessária a compreensão plena e o respeito pelo processos do planeta. Integridade e equilíbrio: os dois elementos que definem o cerne de Permanent Waves.

O terceiro trecho discute a relação entre o mundo natural e sintético e como a integridade de propósitos pode nos permitir alcançar um equilíbrio entre o controle e a compreensão através da própria ciência. A pegada instrumental acelerada é mantida, porém mesclada com inserções mais otimistas. Como a síntese de equilíbrio em "Hemispheres", os verdadeiros benefícios da ciência e da arte só subsistirão através da preservação do espírito humano e da natureza. O Rush, além de apresentar a defesa da liberdade de expressão como um dos pilares do disco, se colocava como um grande admirador do desenvolvimento tecnológico consciente, o que ficaria ainda mais evidente em suas construções líricas subsequentes.

"A declaração dessa canção significa o pensamento de muitos que entendem que, para domar algo, você tem que conquistá-lo", diz Neil. "Não acho que seja verdade. Isso não pertence a ciência, pois, como a natureza, ela também deve ser domada com vistas à preservação. Em outras palavras, você não precisa eliminá-la para salvá-la".

"Obviamente, a relação original entre o homem e a natureza era que ele tinha que domá-la para sobreviver, e isso se tornou cada vez mais sofisticado e fora de controle para, finalmente, culminar apenas em destruição. Foi a mesma coisa com a ciência. As pessoas não a entendem; têm medo dela, achando que é preciso erradicá-la para controlá-la. Acho que precisamos muito mais da consciência na mente das pessoas sobre o que é a ciência, sobre o que ela está fazendo e porquê. A ciência não é algo impessoal que tenta nos destruir, não é um inimigo, é algo que nós mesmos criamos e, se ela está fora de controle, é porque nós mesmos perdemos o controle".

Em "Permanent Waves", Peart e seus companheiros oferecem novamente um olhar inteligente sobre a opressão da sociedade em relação ao indivíduo, e de como homens honestos vão se tornando cada vez mais "uma espécie em extinção". O caminho traçado parte de uma comparação do mundo microcósmico com o vasto Universo, observado do ponto de vista pessoal e subjetivo para aquele em que vivemos, coletivo e objetivo. Inter-relações entre música, natureza e ciência são pensadas de forma sensacional nessa grande canção.

Em última análise, a conclusão de "Natural Science" afirma que a espécie humana acabará, assim como a nossa própria noção do que é o Universo representada inicialmente pelas poças de maré, seguindo o funcionamento de um padrão maior. O tempo passa e as ondas continuarão, retomando a atmosfera inicial. Jamais conseguiremos substituir essa dinâmica, não importa o quão cientificamente avançados nos tornemos. O que se torna cada vez mais nítido é que homem tem conseguido acelerar esse processo com seu egoísmo exacerbado e prepotência. Dessa forma, no tempo da nossa existência, devemos buscar na própria ciência e no conhecimento uma forma harmoniosa com o meio do qual fazemos parte, ao invés de tentar combatê-lo. A arte deve seguir o mesmo caminho, deixando de servir fins comerciais que quebram seus verdadeiros significados, fazendo com que ela nasça genuína, como uma expressão ligada verdadeira e essencialmente à experiência humana. "Natural Science" revisita liricamente a introdução do disco com "The Spirit of Radio" – a arte como expressão e não como campanhas de mercado – materializando as manifestações de emoções e ideias do nosso tempo, e não somente como meros produtos para agradar às massas.

A visão otimista de Peart vislumbra que os homens honestos e íntegros, cada vez mais raros, são os únicos que poderão sobreviver à destruição. Novamente, de forma muito semelhante a "Hemispheres", o trecho final de "Natural Science" trata da ética que observa o pensamento de um cérebro completo – ciência e arte em perfeita harmonia com a natureza. A integridade, ou seja, a particularidade ou condição do que está inteiro, qualidade de quem é honesto é incorruptível, é a chave nesse processo. Essa compreensão abrangente deve partir do autoconhecimento e das nossas próprias relações sociais, resultando em atitudes baseadas na sensibilidade, compreensão, entendimento e respeito.

"É difícil ser muito simples sobre isso, pois é o lado negativo de algo positivo em certo sentido", afirma Neil. "Acho que esse caminho e a ambição culminaram no lado negativo, mas que, obviamente, também adicionaram algumas coisas positivas maravilhosas em termos de tornar mais feliz a vida das pessoas. Acho que há vários avanços sendo tomados pelo homem, o que também é verdade na arte. Em meio a toda essa corrupção, aposto que há coisas boas, coisas que realmente valham a pena. Quero dizer que você pode olhar para o cinema, para os livros sendo escritos, para os jornais – você pode olhar para qualquer manifestação da nossa existência aqui, e verá um lado positivo e um negativo".

"Acho que o descontrole do mundo científico também pode ser um sintoma de que a busca positiva pelo saber é uma das coisas mais preciosas que temos. Tudo se resume realmente a nós mesmos, que temos que ser controlados. Mais do que qualquer outra coisa, nós quem precisamos ser domados. Acho que as pessoas entendem o que dizemos, não estamos superestimando a inteligência delas. Fomos acusados disso, dizendo que devíamos falar de forma menos complicada. Não acho que seja o caso. Acho que não somos gênios, somos apenas caras regulares que se interessam pelas coisas. O fato é que, quando entendemos algo, isso captura nossa imaginação".

Permanent Waves é o trabalho que preparou o caminho para uma nova década de músicas do Rush, trazendo preocupações existenciais, sociais, científicas e com a integridade artística, sem soar pretensioso ou hipócrita. As letras do álbum, em retrospectiva, não são apenas declarações de propósito do fim de uma década, mas uma avaliação de fim de século que surpreendentemente funciona como denúncia e apelo.

Com temas, letras incríveis e musicalidade fantástica, Permanent Waves é uma impressionante obra artística, um significativo trabalho na carreira do Rush. "Natural Science", uma de suas obras mais geniais, afirma que a ciência não é anti-natureza, mas algo que pode completá-la em prol dos anseios humanos se aplicada corretamente.

© 2015 Rush Fã-Clube Brasil

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